março 17th, 2010

Passo a passo e a moça estava mais perto. O apartamento tinha ares sombrios, era de certa forma assustador. Um sobrado, espremido entre dois prédios novos numa rua estreita de paralelepípedo. O sobrado parecia um daqueles senhores idosos que quase não conseguem mais caminhar, e que renunciam diante de toda a juventude que lhes cerca.
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março 10th, 2010

Aquela árvore, estática no meio da praça era por si só um anacronismo. Poder-se-ia dizer que que o conjunto anacrônico era formado por árvore e praça, uma vez que o conjunto resistiu a todas as modernidades impostas ao seu redor. Mas isso não era bem verdade, uma vez que a praça dia após dia era inundadas por turistas, carregando suas máquinas fotográficas de último tipo, seus iPods, suas vidas de bolso. A praça era um passeio para a modernidade. A árvore não, ela era um vulto grande de resistência.
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março 9th, 2010

O gato é um artesão dos sentimentalismos. Sim, este mesmo, gato, bichano, peludo, felino. Bem mais que o homem, esse tigre domesticado sabe usar das suas artimanhas para conquistar a atenção e o carinho daqueles que o cercam. Todo gato é por nascimento um ator.
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março 8th, 2010
Ninguém sabe perder. Mesmo o mais forte dos homens ficará ressentido e se remoendo em mágoas de si mesmo por conta de uma batalha, de um contrato ou de um amor que se perdeu. Nego-me a aceitar que as coisas que a principio se mostram favoráveis venham no decorrer do tempo se transmutar no mais deprimente dos cenários, como a previsão de um fim infeliz, na impossibilidade.
O Nazareno uma vez disse que para entrar no Reino dos Céus é preciso ser como uma criança. Talvez porque uma das maiores virtudes da criança, vista por muitos como um defeito, é a insistência. A criança não desiste com facilidade, bate o pé, faz birra quando quer. Uma criança resignada não é criança, é adulto em corpo pequeno. Talvez por isso Ele tenha feito essa comparação, para que tenhamos a insistência da criança que se dobra feito palmeira, maleável ao vento.
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março 6th, 2010

Germano tentou se aproximar sem que ela percebesse sua chegada. Esqueceu-se de algo que era mais que um mero detalhe: – O aroma de seu charuto. Foi por meio dele que um ano atrás a moça conseguiu encontrar quase perdido num banco de madeira na região mais inóspita do campus o professor por quem se apaixonara. E mesmo que a fumaça o denunciasse, ele continuou com aquela brincadeira de caminhar a passos leves. Ela então cedeu-lhe um olhar, sutil, por cima do ombro direito, e sorriu.
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março 4th, 2010

As duas mãos dadas a balançar… eles pisavam as folhas que cairam das árvores, e por muito tempo esse era o único barulho que ouviam. Evitavam se olhar, caminhavam olhando pra frente, mas vez ou outra caia sobre o rosto alheio um olhar quase disfarçado. Vez ou outra os olhares se encontravam… então era festa.
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março 2nd, 2010

Eu perdi muito da vida e mesmo assim nunca briguei com ela. As coisas aconteceram muito rápido, e eu nem sei ao certo como aconteceram. Quando dei por mim, eu já não era mais criança, querendo ou não querendo eu era o homem da casa. Maria, a matriarca que regia o lar com olhar sereno e braços de lida já não estava mais lá, a irmã que sempre ocupou o papel secundário da mãe, aquele de saber o tamanho das roupas, de comparecer na reunião da escola, já não podia mais fazer muita coisa. A casa tinha paredes, a casa tinha teto, a casa só não tinha mais chão.
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março 2nd, 2010

Acostumada às reprovações, desde aquelas da escola até aquelas presentes no olhar das pessoas. Nunca gostou muito de estudar. Na verdade ela tmabém não gostava das pessoas da escola que eram, ou certinhas demais ou forçosamente rebeldes, carentes de atenção. Ela sempre foi das que deixavam as coisas acontecer. De maneira contraditória, gostava de ler; leu machado de assis, Fernando Pessoa, Kafka, Edgard Allan Poe, Nietzsche, entre outros. A menina impulsiva do cabelo cor de rosa, isso era segredo dela, tinha por passatempo se perder na biblioteca da casa. No lugar onde vivia, aliás, nada nunca lhe faltara, e nessa sobra de quase tudo a menina sempre se viu vazia, saiu pelo mundo, foi procurar uma falta pra sentir.
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março 1st, 2010

Quando a viu em sua frente, o rapaz percebeu que ela era real. Que era tão doce quanto pensava que era, que sua presença era algo arrebatador. Imaginou que podia ser ela a misteriosa moça de seus sonhos, aquela que o fizera feliz várias noites enquanto dormia. Quem sabe não era mesmo ela? Quem sabe aquela sensação de que a conhecia de outros tempos, de outras existências e universos não era algo real? Afinal, até mesmo a voz da bela moça lhe era familiar.
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Posted in autocronica | Tags: amor, futuro, paixão | 1 Comment »
março 1st, 2010
Mês após mês a rotina se repetia, na mesma hora do dia, mesmo dia da semana. José era tão metódico quando o assunto era a consulta ao psicanalista que nem parecia aquele homem que se escondia por detrás da mesa desorganizada, com papéis canetas e livros que pareciam formar verdadeiros montes. A bagunça da mesa só não era maior que a bagunça da mente. Quem via o professor seguro de si mesmo palestrar brilhantemente como se a sala de aula fosse nobre auditório não imaginaria que ele era apenas um frágil menino.
Naquele dia o psicanalista estava mais tenso que José. Precisava ele mesmo ser analisado. José entrou na sala revestida de madeira escura até o teto, de onde descia um lustre formado por um único pêndulo onde uma fraca luz tentava fazer o trabalho do Sol que resolvera não sair aquele dia. Era uma das salas da casa do Doutor. O homem carregando suas complicações e medos de sempre sentou-se na cadeira macia. Iniciou o ritual conhecido fitando o analista nos olhos e proferindo uma saraivada de palavras desconexas onde as únicas coisas que se podiam perceber sem esforço eram sua tristeza e frustração.
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Posted in prosa nova | Tags: amizade, depressão, felicidade, Mudança, psicanálise | 1 Comment »